04/05/10

CABELO, PSICOLOGICAMENTE FALANDO...

CABELO

Este é capaz de ser um dos tópicos mais atíp!cos. E por quê? Porque é escassa a bibliografia sobre este tema. A não ser nas revistas de modas e nos manuais de cabeleireiro, claro! Mas aí não tratam da semiologia do cabelo. No entanto, o cabelo tem uma significação tão forte que até há certas concepções do mundo que obrigam as mulheres a ocultá-lo. Mas não se pretende, aqui, debater essa proibição de as mulheres usarem o cabelo destapado ou a nu. (Ai!, que isto já está a tornar-se demasiado erótico.)

É preciso, porém, não confundir entre a interdição de mostrar o cabelo, e, por outro lado, o uso de lenço na cabeça, como peça de adorno, ou por ser um hábito antigo, especificamente nas zonas rurais, em qualquer parte do mundo.
E se este tema começa com uma referência às mulheres, isso resulta do facto de que elas são, no fim de contas, o núcleo em função do qual uma sociedade se define. Na verdade, o lugar da mulher na sociedade é o indicador mais importante do nível de civilização, isto é, de democracia e de liberdade. Quanto mais as mulheres estão marginalizadas do poder, menor é o grau de democracia. Quanto mais as mulheres são discriminadas, menor é o grau de liberdade. E o caso mais degradante é a redução da mulher à condição de bichinho de estimação para efeito decorativo, que é o que acontece nos videoclips da chamada “música” hip hop.

Afinal este texto é para falar da mulher ou é para falar do cabelo? Acontece que os dois temas não estão desligados, uma vez que o cabelo foi, ao longo dos tempos, um sinal de diferenciação sexual.

Ao abordar este aspecto, é preciso ter em conta que o cabelo é uma parte do sistema piloso. Ora, os pelos são uma das componentes que fazem parte dos “caracteres sexuais secundários”. Esta noção foi criada por Charles Darwin e designa as particularidades físicas do ser vivo, macho ou fêmea, que não estão ao serviço imediato das relações sexuais e da procriação. E o psicólogo Havelock Ellis, no seu livro “Psicologia do Sexo”, diz, sobre o cabelo, que “ele é sexualmente a parte mais notada do corpo feminino, depois dos olhos”.

Acontece que a ocultação do cabelo não deixa de provocar um certo efeito sensual. É que o erotismo tem muito mais a ver com o que se oculta do que com o que se mostra. Porque o que está oculto faz a imaginação abrir as asas. E é principalmente por isto que o erotismo se diferencia da pornografia.

Por outro lado, a supremacia do efeito sensual dos olhos pode tornar-se maior quando, além do cabelo, também a parte inferior do rosto está coberta por um véu.
Mas este texto nem sequer era para falar destas coisas. Acontece que, por vezes, o texto toma o freio nos dentes, e põe-se a galopar por inesperados relvados.
Regressando ao cabelo: no seu livro “Psicologia da Actualidade”, Emílio Servadio afirma que, nos nossos tempos, os cabelos são “valorizados como um ornamento do qual se pode ter orgulho”.

Ao observar o cabelo como ornamento, é preciso ter em conta a diferença entre homens e mulheres. E também a diferença entre cabelos lisos e cabelos crespos ou anelados. O facto mais admirável, no que diz respeito a estes aspectos, é que parece haver uma tendência de troca de papéis. Os homens passaram a usar penteados que, antes, eram tipicamente femininos. Os homens de cabelo crespo usam o cabelo trançado em penteados muito bem desenhados; os de cabelo liso passaram a usar rabo-de-cavalo.

As mulheres de cabelo crespo querem, a todo o custo, usá-lo liso e desfrisam-no; as mulheres de cabelo liso optam por penteados do estilo dito “afro”.
Até parece que cada qual não deseja ser ele próprio, só anseia ser o outro.

É claro que nem toda a gente segue estas tendências. Aliás, no plano individual, o modo como cada pessoa usa esse ornamento é altamente eloquente quanto ao perfil psicológico, social e cultural dessa pessoa.

Pode fazer-se a leitura, por exemplo, dos diferentes penteados das mulheres: cabelo trançado; desfrisado; penteado em ondulações (chamava-se “permanente”); envolvido num lenço; oculto por um véu; rapado.

O caso do uso de mechas merece menção especial. Não serão também estas um meio de ocultar o cabelo natural? Mas o mais saliente é o seguinte: a atracção suscitada pelo cabelo está associada ao sentido da visão, mas também do tacto e do olfacto. Sendo assim, que espécie de sensualidade pode ser atiçada pelas mechas?
No caso dos homens, que leitura se pode fazer da moda masculina do cabelo rapado? E da moda rastafári?

O cabelo é também um sinal do tempo, porque segue a moda e esta muda. Mas também é sinal do tempo de vida, quando a cor do cabelo começa a mudar, ou quando ele começa a cair.

Para além de tudo isto, o cabelo pode ser ainda outra coisa: um bom tema para uma tese de licenciatura na área da Psicologia Social. Título da tese: “A função do cabelo na preservação da identidade cultural, na era da globalização”. Mas, atenção!, lá porque o cabelo faz parte dos “caracteres sexuais secundários”, não é preciso confundir “preservação”, com “preservativo”.
Nilma Gomes